
Era uma vez, no país das Américas, onde os Estados se unem, uma economia que prosperava nos anos 90.
Tobias, um jovem cheio de vontade de ganhar dinheiro rapidamente, terminado o seu curso de gestão, ingressou numa empresa financeira vocacionada para os novos clientes da classe média-baixa.
Tobias tornou o acesso ao dinheiro em algo fácil, cada vez mais fácil e os seus clientes nem sequer sabiam que os juros crescem de uma forma exponencial.
Tobias tornou moda ter 4 ou 5 cartões de crédito, comprar carro novo e já agora uma ou duas casas para morar e passar férias … Ah! E já agora um pequeno crédito para essas férias.
O mercado imobiliário florescia, o endividamento aumentava e mesmo que os juros cobrados fossem altos, na conjuntura, as taxas ainda eram reduzidas.
A empresa de Tobias tinha lucros fabulosos e aguçava a cobiça da Banca tradicional que incrementou a entrada neste tipo de negócio.
Tobias tinha um irmão, 16 anos, sem rendimentos, mas a sua palavra de honra bastou para aceder a um crédito imobiliário.
A empresa financeira já vendia os seus créditos aos Bancos, que por sua vez, adiantavam capitais provenientes de outros Bancos e estes emprestavam ainda sobre cada empréstimo concedido.
O irmão de Tobias chegou mesmo a hipotecar a sua casa pela 2ª vez para adquiri um automóvel. Facilmente negociava com o seu Banco, dada a concorrência desenfreada. Afinal de contas, o imóvel que adquiriu há cerca de um ano já valia mais do dobro. A garantia era quase interminável, podia pedir mais e mais com base na sua casinha, agora casarão.
Nunca o dinheiro esteve tão barato e tão fácil. Nunca o consumo tinha crescido tanto e afinal não havia assim tantas pessoas que deixavam de pagar as suas prestações pois as suas casas eram autênticas caixas multibanco.
Depois do dia em que 2 aviões pilotados pela Al-Qaeda atingiram duas torres como se de gémeas se tratassem, bem no centro de Manhattan, o FED baixou a taxa de juro para 1%.
Se os milhares de familiares de todos aqueles que arderam no meio do pó de cimento e do aço derretido estavam desolados com a tragédia e com a insegurança pelo aparecimento de um novo terrorismo medonho, por outro lado, Tobias respirava um novo fôlego. É que a dada altura, a entidade patronal de Tobias já começava a perder algum controlo quanto ao número de pessoas que já deixavam de fazer face aos seus compromissos de crédito.
Agora, com o juro a 1%, os do país do tio Sam aproveitaram para investir em novas casas com empréstimos mais uma vez facilmente concedidos, escondendo uma vez mais a face de um Monstro chamado “Subprime”, calando-o, adormecendo-o com mais endividamento aos que as dívidas já não pagavam.
Tobias trabalhou sempre, até 2004, debaixo de uma esperança que não dependia dele, mas daqueles que deveriam pagar e fazer desaparecer a bolha financeira e imobiliária que inflamava com origem no início desta história.
Mas, da inflamação veio a inflação. Com a economia a abrandar, o FED teve que voltar a subir as taxas de juro e que subida!...
Foram prestações que mais que duplicaram, investimentos que deixaram de existir, casas a mais para vender … afinal não eram casarões, mas casinhas, barracas que já nada valiam!
Nessa altura Tobias recebia na empresa cartas de despedida, despedida dos futuros proprietários das casas que vendera e cuja hipoteca tinha mesmo que ser accionada. Essas cartas, muitas delas, vinham com recheio, um tilintar de chaves que o comprador tinha assumido já não serem dele … já não conseguia pagar aquela prestação.
A vida complicada destes cidadãos entalados entre juros, ambições desmedidas, entalava também as financeiras, Bancos, imobiliárias e empresas de construção.
A bolha rebentou, Agosto de 2007, verão quente, com Tobias despedido da empresa onde a toxicidade dos seus activos assim obrigou. Títulos e hipotecas que valiam menos de metade, ou melhor, valiam zero.
Tobias apenas assistiu à falência da sua empresa e de outra, e de mais uma, e de dois grandes Bancos financeiros, e de um todo colapso bolsista que apagou do dicionário a palavra poupança.
O verão quente de 2007 fez parar toda a economia desse país das Américas onde os Estados se uniam para o motor Mundial não parar. Mas parou, parou tudo, parou o Mundo todo porque o combustível que fez andar o motor afinal era tóxico, pois … o petróleo estava a preços nunca antes visos e uma simples greve de camionistas fazia num cantinho da Europa dois dias de puro pânico com corridas aos supermercados para apanhar o último pacote de leite, de arroz, a água … como se um cataclismo natural estivesse anunciado.
Acreditam nesta história? Não? Eu também não! Afinal de contas ela termina com tudo e todos a desconfiar uns dos outros. Até o Banco onde eu trabalho já desconfia de mim. Pudera!...Se desconfia de todos os outros Bancos e não lhes empresta mais dinheiro, como há-de confiar em mim ou no Tobias?
A crise só é crise porque pessoas como eu e como o Tobias contribuíram, acreditem que inadvertidamente, para o colapso financeiro que hoje afogou o Mundo numa crise social que esta história já não relata, pois esta não é passado nem presente, a crise social é futuro!

